quarta-feira, 26 de novembro de 2025

O desejo como aspiração e não como falta

Imagem gerada por IA


Mário Moura - Educador e Poeta 

A origem da palavra desejo é muito bonita. Na tradição antiga e também na Renascença através da Astrologia, era tentar decifrar pelos astros o destino de cada um. Em latim, sidero significa o conjunto de estrelas (que forma a Via-Láctea) ou aquilo que a gente chama o espaço sideral, ou seja, relativo  aos astros.

E olhando os astros com respeito e fervor, pedia-se uma resposta a respeito do destino. Quando fazia-se isso, o verbo usado para essa atitude era considerare. E considerare significava estar na presença dos astros, estar com os astros e receber uma resposta, mas, muitas vezes, se consultava os astros (ou os deuses) e eles permaneciam em silêncio, não diziam nada. Neste sentido, estava-se, então, separado dos astros e essa separação era marcada pelo uso do prefixo “de”. Então, considerare, estar com os astros; desiderare estar sozinho, sem o apoio dos astros, em busca do sentido, do seu destino. E é de desiderare que vem desejo, desiderium, que passa a significar o sentimento da falta de alguma coisa que a gente busca.

Dessa maneira, se as estrelas na antiguidade eram o elo de ligação entre os homens e os astros/os deuses, então, desejar significa ficar à deriva, à mercê, nas rodas da fortuna, deixar de guiar-se pelas mensagens divinas ou das estrelas. O desejo é o sentimento da falta. Aquilo que eu desejo é aquilo que me falta. E é isso desiderare.

Esta visão do desejo como falta, carência e vazio atravessou os séculos (Platão, estoicos, cristãos, Hobbes, Hegel, Schopenhauer, Freud e Sartre), mas prefiro partir da concepção do desejo como aspiração, forte vontade ou anseio por algo ou alguém. Para Espinoza (séc. XV), o desejo é mais que uma ideia:  é a própria essência do homem.

Assim, desejo é uma força, da qual o homem vale-se para criar realidades, expandir-se e tornar-se outro. Em outras palavras é relacionar-se com a vida de forma positiva, onde a troca com o mundo nos faça mais e melhores. Desejo que gera alegria, liberdade e vida, cada vez mais vida!

Esta é a grande lição de Espinoza: desejo é o esforço, a inclinação, por algo que acreditamos útil para nossa conservação, a  fim de preservar o corpo e a mente. Ele é nossa essência, ele é a causa eficiente de nossas aspirações, sonhos e ações.

Que o desejo como aspiração do latim spirare que significa respirar ou soprar, seja o desejo interno e intenso de alcançar algo ou de inspirar alguém.

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