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domingo, 10 de maio de 2020

Ser Mãe

Mário Moura - Pedagogo, escritor e poeta

Desde quando nascemos para nós filhos, a pessoa que nos gerou, amamentou, alimentou, cuidou... é nossa mãe. Minha mãe. Carregamos este arquétipo de maternidade para o resto da vida. Por conta dessa relação maternal que é bastante simbólica e importante, não nos damos conta de outro lado desta figura feminina, daquela que trabalha, ausenta-se da casa, paga contas, tomas decisões, enfim, muitas das vezes abnega-se de suas vontades e desdobra-se para cuidar dos filhos, da casa e do trabalho.

Nós filhos demoramos a descobrir este lado e quando o fazemos, entendemos que por trás da mãe existe uma mulher. E essa mulher a gente sempre recusa, porque a gente só quer a mãe pra gente. Esse processo abre espaços a aprendizados conjuntos, já que a partir dessa realidade poderemos ser mais que um pai, uma mãe ou um filho.

Neste tempo de pandemia com o isolamento social, quantas mães não estão chateadas por estarem "ausentes", "longe", sem contato com netos, filhos, a família??? Quantos de nós filhos estamos evitando o contato, com nossas mães tomando cuidado para manter a segurança delas???

Para mim neste momento o que importa não é a presença física, mas o amor compartilhado à distância. Este é o melhor presente e singelo abraço que podemos dar, por agora. É descobrir que mãe, nossa mãe, mulher, nesta história toda é a referência que sustenta todos os nossos laços afetivos com ela, com os outros, com o mundo...

Como nos diz Mário Quintana: "Para louvar a nossa mãe,/Todo bem que se disser,/ Nunca há de ser tão grande/Como o bem que ela nos quer".

Paz e Bem!!!

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Ou assumimos nossa coexistência ou sumimos

Miguel Almir - Professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)

Os modelos de desenvolvimento econômico que regem nossa sociedade, sob a égide do capitalismo, em suas diversas vertentes, instalaram visões de mundo que propagam e afirmam concepções e posturas lastreadas no individualismo e na competição como únicos caminhos e modos possíveis de viver em sociedade. 

Diversos/as pensadores/as, pesquisadores/as, sábios/as de tradições ancestrais, pessoas imbuídas de repertórios culturais que primam pelos caminhos da coexistência solidária, da ecohumanização há muito tempo têm alertado sobre o que é flagrantemente óbvio: a predominância da lógica da competição, da supremacia do ter em detrimento do ser, do produtivismo predatório, arrasta a humanidade para a sua própria destruição. Esses modos de desenvolvimento econômico têm se revelado explicitamente insustentáveis pelas consequências devastadoras que proporcionam para os viventes do planeta terra, para o ecossistema. 

A supremacia desses paradigmas incide num desenvolvimento econômico que privilegia o lucro pelo lucro, a riqueza material e financeira de uma pequena minoria através de processos destrutivos das vidas, das relações entre os humanos e destes com a natureza/ecossistema. Um des-envolvimento extremamente utilitário e produtivista, mecânico e funcional desprovido de envolvimento humano, de respeito e de cuidado para com nossas vidas e as de todos os seres com os quais somos interdependentes e complementares.

Os mananciais das mais variadas fontes de sabedorias ancestrais (africanas, ameríndias....), muitas pesquisas realizadas nas áreas das humanidades e de outras ciências, entre outras fontes, nos afirmam, de modo e imperativo, que nós, seres humanos, somos destinados, originariamente, aos vínculos de coexistência, de cooperação, de compartilhamento, de solidariedade. Na proporção em que, direta e indiretamente, somos interdependentes uns dos outros, em dimensões tanto visíveis quanto invisíveis, carece de que cuidemos com afinco e prudência dessa teia in-tensiva de interligação para que esta não se esfiape e se dilacere. 

Para que essa teia de coexistência seja cuidada e renovada constantemente é preciso que cultivemos os valores primordiais da generosidade, do altruísmo, da equidade, da compaixão, dos modos de ser-com, da ecofraternidade. Enfim, do ecoamor que supõe amar a todos os viventes. 

De modo geral, o que mais fizemos nos últimos tempos - salvo as boas exceções -, foi fragmentar e rasgar brutalmente essa teia mediante ações individualistas e competitivas de cunho extremamente mercantil e predatório impulsionadas pela voracidade de um consumismo que, se não tomarmos outro rumo, por fim, nos consumirá. Essas posturas predatórias têm nos levado a uma barbárie civilizóide, a uma brutalização autofágica no reinado do homo stupids.  

Nossa história humana é movida pela gravitação dos fluxos tensoriais, dos germes das contradições que podem potencializar transformações profundas. Muitas vezes, torna-se necessário acontecerem eventos e fatos que revelam crises intensas e impactantes, de forma trágica e dilacerante, para que tomemos consciência (ou não) das ações doentias que estamos tendo para tocar a vida, as relações entre os humanos e com os outros seres viventes.

Foi preciso surgir um microorganismo invisível e imensamente perigoso, em forma de um vírus, com potências corrosivas e letais para provocar uma interrupção abrupta e radical no ritmo frenético e devastador em que estávamos levando nossa vida cotidiana. Uma coroa invisível e espinhosa traz ameaças profundas de morte em massa para a raça humana e, de modo assustador, impõe freios violentos em nossos modos de estar no mundo, impulsionados por essas posturas predatórias em relação às vidas humanas e não humanas que perfazem o ecossistema.  

Considerando uma perspectiva vasta de compreensão humana que inclui e ultrapassa os vãos do saber e nos descortina pelos desvãos da sabedoria, uma das lições que, de modo contundente, podemos aprender, é que, como afirma a expressão africana ubuntu, sou porque nós somos. Ou seja, nessa teia de coexistência que nos interliga de forma micro e macro nos complementamos uns com os outros; nos afirmamos e nos qualificamos humanamente na proporção e que nos entrecruzamos solidariamente. Queiramos ou não, sozinhos não subsistimos. Somos, de modo estruturante, interligados uns com os outros nas travessias de nossas sagas humanas, inter-humanas e ecohumanas.

Parece ficar patente que, ou cuidamos com desvelo e primor dos laços que nos entrelaçam mediante atitudes altruístas e altaneiras ou nos esgarçamos. Ou nos amamos, nos ecoamamos, ou nos armamos, nos devoramos e nos dizimamos. Nossa existência somente pode se afirmar através de nossa coexistência solidária. Ou assumimos essa coexistência ou sumimos. O que nos sustenta, como humanidade, não é a egocidadania mas a ecocidadania. Ou nos entrelaçamos ou nos lascamos!

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

E A FELICIDADE?

Por Mário Moura - Pedagogo, escritor e poeta. Coordenador Pedagógico da rede municipal de Santa Brígida-Bahia.

Ser feliz é algo passageiro, e estar/ficar feliz é algo retilíneo e contínuo. Para Mario Sergio Cortella “Se a felicidade pudesse ser um estado contínuo, nós não a perceberíamos, assim como não percebemos nossa respiração, exceto carência, quando o ar nos falta.”. No dia a dia temos que transformar a felicidade não numa técnica, mas em arte: a arte da convivência, de saber renunciar, de relativizar os problemas e a arte mais sútil está nas pequenas coisas e isto é muito simbólico.
O capitalismo se tornou a cultura do capital e nós somos vítimas dessa cultura. Temos que trocar o sapato, o aparelho celular, a roupa, a tv... é uma situação sem fim, na ilusão que o consumo traz a felicidade. Eis o desafio: como ser feliz? Para Saint-Exupéry no livro Cidadela, o ser humano é um nó de relações voltadas em todas as direções. Onde está a felicidade? Santo Tomás de Aquino diz que tudo que nós fazemos mesmo quando praticamos o mal, estamos fazendo em busca da felicidade. Isso vale para a Santa Dulce dos Pobres, vale para Suzane Von Richthofen, vale para Malala Yousafzai,  vale para Jair Bolsonaro, vale para mim e a você. A felicidade depende basicamente do sentido que nós imprimimos a nossa vida.
O sistema hoje nos incute, principalmente nos jovens, quatro falsos valores que vem movendo gerações: poder, riqueza, fama e beleza. Faltou isso haja depressão, medicamentos, terapia... mais uma vez: nessa cultura consumista, nós somos/estamos condenados a infelicidade.
A felicidade é simples e nós perdemos um pouco essa percepção da felicidade como simplicidade do gesto, do abraço, do afago, da partilha. Simplicidade e não banalidade. A felicidade não é constante, mas também não é ausente. Ela tem que ser procurada, onde pode ser encontrada. Ela pode ser encontrada de dentro e de fora se estiver no simples e na capacidade da bem-aventurança.
A felicidade é possível num mundo de desespero? Claro que sim, desde que nós não obscureçamos os momentos em que ela possa vir à tona. Detalhe: a felicidade não vem à tona sozinha, ela tem que ser gestada nesse tempo, nós temos que escavá-la.
A ideia de felicidade está ligada a ideia de fertilidade. Nos sentimos felizes quando sentimos que a vida não cessa, que ela pulsa em nós, naquele gesto, naquele movimento, naquela utopia, naquele desejo... neste sentido, a felicidade é altamente erótica, isto é, ela é uma energia de movimento vital possuindo uma sensualidade e quando nos sentimos num momento feliz, nos sentimos bem à beça. Nos sentimos cheios de graça. E como nos aconselhou Mário Quintana: “Felicidade não é correr atrás de borboletas, mas cuidar do jardim para atraí-las.”.


segunda-feira, 22 de julho de 2019

I Encontro de Escritores Santabrigidenses & Convidados



Será realizado em Santa Brígida-Bahia, o Iº Encontro de Escritores Santabrigidenses & Convidados. Segundo o idealizador do projeto, o escritor Marcos Antônio Lima, Membro Fundador da ALAS (Academia Literária do Alto Sertão Sergipano) e Membro Correspondente da ALPA (Academia de Letras de Paulo Afonso), Autor das obras poéticas: Amor em versos & reversos (2001 - Scortecci Editora-SP), Aquarela Poética (Coletânea Abrindo Alas – 2016), Jardim de Árida Poesia (Editora Kazuá – 2016), e dos Romances Regionais: Um homem à sombra de seu destino (Editora Garcia – 2018), De Gameleira à Colônia, Uma saga nordestina (Editora Garcia – 2019), um dos idealizadores do Encontro de Escritores Monte-alegrenses &Convidados, que neste ano de 2019 estará indo para a sua 3ª Edição: "O evento tem como principal objetivo incentivar a produção literária e lançar novos escritores". Marcos conta com a parceria do escritor e também Membro Correspondente da ALPA: Alcivandes Santos Santana, de Marivônia Marques - Secretária de Cultura e Turismo de Santa Brígida - BA e do escritor, poeta e Coordenador Pedagógico do Centro Educacional Zenor Pereira Teixeira: Mário Moura, que juntos formam a Comissão Organizadora do Evento.

Pensando na necessidade de se “ficar um pouco mais por aqui”, como escreveu Rubem Alves, nós, organizadores estamos lançando o Edital para o Iº Encontro de Escritores Santabrigidenses & Convidados. Esse será um espaço onde novos sonhos criarão asas, novos escritores surgirão e os renomados se consolidarão ainda mais na produção literária. Palavras do poeta Marcos Antônio Lima. Para Mário Moura, "Um evento deste tipo é extremamente importante. Acredito que será um impacto impressionante na vida cultural, no reconhecimento e promoção da mesma. Reconhecer  Santa Brígida como uma cidade onde a cultura tem um lugar preponderante diante dos outros setores, visto a tradição do turismo religioso na dimensão dos romeiros de Pedro Batista e Madrinha Dodô e das diversas manifestações culturais locais já amplamente conhecidas nacional e internacionalmente. Este encontro será momento para podermos incentivar inclusive o surgimento de novos talentos!".

O tema será livre, podendo o (a) escritor (a) propor um Conto, Cordel, Crônica, Poema ou Pensamentos. Poderá participar da Antologia toda pessoa física maior de 18 anos, brasileira ou estrangeira. Caso o (a) participante seja menor de idade deverá ser assinado um termo de autorização pelo responsável. 

Apoio Cultura: Academia de Letras de Paulo Afonso (ALPA) - Secretaria de Cultura & Turismo de Santa Brígida - Secretaria de Educação de Santa Brígida - BA e Academia de Letras e Artes de Canindé do São Francisco (ACLAS).

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

De onde surgiu o Bolsonaro? Por Gustavo Bertoche

Desculpem os amigos, mas não é de um "machismo", de uma "homofobia" ou de um "racismo" do brasileiro. A imensa maioria dos eleitores do candidato do PSL não é machista, racista, homofóbica nem defende a tortura. A maioria deles nem mesmo é bolsonarista.


O Bolsonaro surgiu daqui mesmo, do campo das esquerdas. Surgiu da nossa incapacidade de fazer a necessária autocrítica. Surgiu da recusa em conversar com o outro lado. Surgiu da insistência na ação estratégica em detrimento da ação comunicativa, o que nos levou a demonizar, sem tentar compreender, os que pensam e sentem de modo diferente.

É, inclusive, o que estamos fazendo agora. O meu Facebook e o meu WhatsApp estão cheios de ataques aos "fascistas", àqueles que têm "mãos cheias de sangue", que são "machistas", "homofóbicos", "racistas". Só que o eleitor médio do Bolsonaro não é nada disso nem se identifica com essas pechas. As mulheres votaram mais no Bolsonaro do que no Haddad. Os negros votaram mais no Bolsonaro do que no Haddad. Uma quantidade enorme de gays votou no Bolsonaro.

Amigos, estamos errando o alvo. O problema não é o eleitor do Bolsonaro. Somos nós, do grande campo das esquerdas.
O eleitor não votou no Bolsonaro PORQUE ele disse coisas detestáveis. Ele votou no Bolsonaro APESAR disso.

O voto no Bolsonaro, não nos iludamos, não foi o voto na direita: foi o voto anti-esquerda, foi o voto anti-sistema, foi o voto anti-corrupção. Na cabeça de muita gente (aqui e nos EUA, nas últimas eleições), o sistema, a corrupção e a esquerda estão ligados. O voto deles aqui foi o mesmo voto que elegeu o Trump lá. E os pecados da esquerda lá são os pecados da esquerda aqui.

O Bolsonaro teve os votos que teve porque nós evitamos, a todo custo, olhar para os nossos erros e mudar a forma de fazer política. Ficamos presos a nomes intocáveis, mesmo quando demonstraram sua falibilidade. Adotamos o método mais podre de conquistar maioria no congresso e nas assembleias legislativas, por termos preferido o poder à virtude. Corrompemos a mídia com anúncios de empresas estatais até o ponto em que elas passaram a depender do Estado. E expulsamos, ou levamos ao ostracismo, todas as vozes críticas dentro da esquerda.

O que fizemos com o Cristóvão Buarque?
O que fizemos com o Gabeira?
O que fizemos com a Marina?
O que fizemos com o Hélio Bicudo?
O que fizemos com tantos outros menores do que eles?

Os que não concordavam com a nossa vaca sagrada, os que criticavam os métodos das cúpulas partidárias, foram calados ou tiveram que abandonar a esquerda para continuar tendo voz.

Enquanto isso, enganávamo-nos com os sucessos eleitorais, e nos tornamos um movimento da elite política. Perdemos a capacidade de nos comunicar com o povo, com as classes médias, com o cidadão que trabalha 10h por dia, e passamos a nos iludir com a crença na ideia de que toda mobilização popular deve ser estruturada de cima para baixo.
A própria decisão de lançar o Lula e o Haddad como candidatos mostra que não aprendemos nada com nossos erros - ou, o que é pior, que nem percebemos que estamos errando, e colocamos a culpa nos outros. Onde estão as convenções partidárias lindas dos anos 80? Onde estão as correntes e tendências lançando contra-pré-candidatos? Onde estão os debates internos? Quando foi que o partido passou a ter um dono?

Em suma: as esquerdas envelheceram, enriqueceram e se esqueceram de suas origens.
O que nos restou foi a criação de slogans que repetimos e repetimos até que passamos a acreditar neles. Só que esses slogans não pegam no povo, porque não correspondem ao que o povo vivencia. Não adianta chamar o eleitor do Bolsonaro de racista, quando esse eleitor é negro e decidiu que não vota nunca mais no PT. Não adianta falar que mulher não vota no Bolsonaro para a mulher que decidiu não votar no PT de jeito nenhum.

Não, amigos, o Brasil não tem 47% de machistas, homofóbicos e racistas. Nós chamarmos os eleitores do Bolsonaro disso tudo não vai resolver nada, porque o xingamento não vai pegar. O eleitor médio do cara não é nada disso. Ele só não quer mais que o país seja governado por um partido que tem um dono.

E não, não está havendo uma disputa entre barbárie e civilização. O bárbaro não disputa eleições. (Ah, o Hitler disputou etc. Você já leu o Mein Kampf? Eu já. Está tudo lá, já em 1925. Desculpe, amigo, mas piadas e frases imbecis NÃO SÃO o Mein Kampf. Onde está a sua capacidade hermenêutica?).

Está havendo uma onda Bolsonaro, mas poderia ser uma onda de qualquer outro candidato anti-PT. Eu suspeito que o Bolsonaro só surfa nessa onda sozinho porque é o mais antipetista de todos.

E a culpa dessa onda ter surgido é nossa, exclusivamente nossa. Não somente é nossa, como continuará sendo até que consigamos fazer uma verdadeira autocrítica e trazer de volta para nosso campo (e para os nossos partidos) uma prática verdadeiramente democrática, que é algo que perdemos há mais de vinte anos. Falamos tanto na defesa da democracia, mas não praticamos a democracia em nossa própria casa. Será que nós esquecemos o seu significado e transformamos também a democracia em um mero slogan político, em que o que é nosso é automaticamente democrático e o que é do outro é automaticamente fascista?

É hora de utilizar menos as vísceras e mais o cérebro, amigos. E slogans falam à bile, não à razão.

sábado, 16 de maio de 2015

O dia seguinte ao fim da escravidão

Texto de Douglas Belchior - publicado na página da Revista Carta Capital

Imagine um amigo seu ou um parente que fosse tratado como um animal. Imagine as pessoas que você ama vivendo sem ter nenhum direito, podendo ser vendidos, trocados, castigados, mutilados ou mesmo mortos sem que ninguém ou nenhuma instituição pudesse intervir em seu favor. Imagine você, seu pai, sua mãe ou seu filho sendo tratados como coisa qualquer, como um porco, um cavalo, ou um cachorro. Imagine sua filha sendo levada ou mesmo ao seu lado, estuprada, todos os dias e depois, grávida à serventia do negócio de seu dono.

Clóvis Moura (Moura, 1989, p.15-16), faz o relato sem personagens. Eu os incluí para pedir que imagine.

Você que já chorou diante das cenas que remetem o sofrimento de Jesus Cristo na sexta feira da paixão; Você que fechou os olhos frente às fortes imagens de Django Livre; Você que se emocionou com 12 anos de escravidão, imagine.

Imagine – e saiba – que teu país e as riquezas que o conformam existem em função de 4 séculos de escravidão. E de tudo que deste período e deste sistema decorreu a partir de então.


Mas enfim, a escravidão acabou: 13 de maio, princesa Isabel e muita festa! Festa e promessa de abonança, tal qual desrespeitosamente a amiga Globo nos lembrou.


E no dia seguinte tudo seria diferente.


Desde que acompanho o movimento negro, aprendi que dia 14 de maio, o dia seguinte ao fim da escravidão, foi o dia mais longo da história. Aliás, dizem outros, é o dia que não terminou.


Depois de séculos de sequestros, escravidão e assassinatos, o que se viu nos anos pós-abolição foi a formação e o desenvolvimento de um país que negou e ainda nega à população negra condições mínimas de integração e participação na riqueza.


Sem terra, sem empregos, sem educação, sem saúde, sem teto, sem representação. Sequer a mais liberal das reformas, a agrária, fora possível no país das capitanias hereditárias. Vamos olhar para o campo e observar as fileiras ou os acampamentos de Sem Terra, maioria negras e negros. Vamos buscar na memória os rostos de quem conforma o pelotão que estremece São Paulo na justa luta por moradia capitaneada pelos movimentos de Sem-Teto nos dias de hoje: negras e negros! Bora olhar para as filas dos hospitais, para os que esperam exames e tratamentos, para os analfabetos ou para as crianças em idade escolar que estão fora da escola. Vamos olhar para a população carcerária e suas condições de existência. Vamos olhar para as vítimas de violência policial, para os números de desaparecimentos e homicídios. Vamos olhar para os dependentes do bolsa-família ou da previdência social. Vamos olhar para a pobreza. De fato, ela atinge a todos. Mas a presença de negras e negros nas condições narradas aqui, tem sido desproporcional e pouco se alterou desde 1888.


O dia seguinte, a década seguinte, os 127 anos seguintes ao fim da escravidão não foram suficientes para nos livrar de uma herança racista, reafirmada cotidianamente pelos descendentes dos colonizadores que sempre dirigiram o Brasil. Estes mantém a posse do latifúndio, hoje rebatizado agronegócio. Mantém o domínio dos grandes meios de comunicação, são donos das grandes empresas, bancos, conglomerados educacionais-empresariais, além de dirigir politicamente as maiores Igrejas. Com isso garantem o poderio econômico a supremacia política e a representação eleitoral de maneira a manter intocáveis seus interesses.


Nada diferente do que tem sido os últimos 127 anos. Ou os últimos 515?
E nesse dia seguinte ao 13 de maio, nesse dia depois do “fim da escravidão”, resistimos! E em saraus, cursinhos comunitários, coletivos negros, nas rodas de samba e candomblé, nos bondes funkeiros, no hip-hop, na poesia, na literatura, nas artes, na internet, no movimento negro, e aos pouquinhos, nas universidades, existimos.


E sendo assim, dotados de tamanha resiliência, imaginem a revolta!


domingo, 28 de abril de 2013

28 DE ABRIL: DIA NACIONAL DO BIOMA CAATINGA



A caatinga ocupa uma área de cerca de 844.453 quilômetros quadrados, o equivalente a 11% do território nacional. Engloba os estados Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Piauí, Sergipe e o norte de Minas Gerais. Rico em biodiversidade, o bioma abriga 178 espécies de mamíferos, 591 de aves, 177 de répteis, 79 espécies de anfíbios, 241 de peixes e 221 abelhas. Cerca de 27 milhões de pessoas vivem na região, a maioria carente e dependente dos recursos do bioma para sobreviver. A caatinga tem um imenso potencial para a conservação de serviços ambientais, uso sustentável e bioprospecção que, se bem explorado, será decisivo para o desenvolvimento da região e do país. A biodiversidade da caatinga ampara diversas atividades econômicas voltadas para fins agrosilvopastoris e industriais, especialmente nos ramos farmacêutico, de cosméticos, químico e de alimentos. 

Apesar da sua importância, o bioma tem sido desmatado de forma acelerada, principalmente nos últimos anos, devido principalmente ao consumo de lenha nativa, explorada de forma ilegal e insustentável, para fins domésticos e indústrias, ao sobrepastoreio e a conversão para pastagens e agricultura. Frente ao avançado desmatamento que chega a 46% da área do bioma, segundo dados do Ministério do Meio Ambiente (MMA), o governo busca concretizar uma agenda de criação de mais unidades de conservação federais e estaduais no bioma, além de promover alternativas para o uso sustentável da sua biodiversidade. 

Em relação às Unidades de Conservação (UC´s) federais, em 2009 foi criado o Monumento Natural do Rio São Francisco, com 27 mil hectares, que engloba os estados de Alagoas, Bahia e Sergipe e, em 2010, o Parque Nacional das Confusões, no Piauí foi ampliado em 300 mil hectares, passando a ter 823.435,7 hectares. Em 2011 foi criado o Parque Nacional da Furna Feia, nos Municípios de Baraúna e Mossoró, no estado do Rio Grande do Norte, com 8.494 ha. Com estas novas unidades, a área protegida por unidades de conservação no bioma aumentou para cerca de 7,5%. Ainda assim, o bioma continuará como um dos menos protegidos do país, já que pouco mais de 1% destas unidades são de Proteção Integral. Ademais, grande parte das unidades de conservação do bioma, especialmente as Áreas de Proteção Ambiental – APAs, têm baixo nível de implementação.

Paralelamente ao trabalho para a criação de UCs federais, algumas parcerias vêm sendo desenvolvidas entre o MMA e os estados, desde 2009, para a criação de unidades de conservação estaduais. Em decorrência dessa parceria e das iniciativas próprias dos estados da caatinga, os processos de seleção de áreas e de criação de UC´s foram agilizados. Os primeiros resultados concretos já aparecem, como a criação do Parque Estadual da Mata da Pimenteira, em Serra Talhada-PE, e da Estação Ecológica Serra da Canoa, criada por Pernambuco em Floresta-PE, com cerca de 8 mil hectares, no dia da caatinga de 2012 (28/04/12). Além disso, houve a destinação de recursos estaduais para criação de unidades no Ceará, na região de Santa Quitéria e Canindé. 

Merece destaque a destinação de recursos, para projetos que estão sendo executados, a partir de 2012, na ordem de 20 milhões de reais para a conservação e uso sustentável da caatinga por meio de projetos do Fundo Clima – MMA/BNDES, do Fundo de Conversão da Dívida Americana – MMA/FUNBIO e do Fundo Socioambiental - MMA/Caixa Econômica Federal, dentre outros (documento com relação dos projetos). Os recursos disponíveis para a caatinga devem aumentar tendo em vista a previsão de mais recursos destes fundos e de novas fontes, como o Fundo Caatinga, do Banco do Nordeste - BNB, a ser lançado ainda este ano. Estes recursos estão apoiando iniciativas para criação e gestão de UC´s, inclusive em áreas prioritárias discutidas com estados, como o Rio Grande do Norte. 

Também estão custeando projetos voltados para o uso sustentável de espécies nativas, manejo florestal sustentável madeireiro e não madeireiro e para a eficiência energética nas indústrias gesseiras e cerâmicas. Pretende-se que estas indústrias utilizem lenha legalizada, advinda de planos de manejo sustentável, e que economizem este combustível nos seus processos produtivos. Além dos projetos citados acima, em 2012 foi lançado edital voltado para uso sustentável da caatinga (manejo florestal e eficiência energética), pelo Fundo Clima e Fundo Nacional de Desenvolvimento Florestal – Serviço Florestal Brasileiro, incluindo áreas do Rio Grande do Norte. Confira

Devemos ressaltar que o nível de conhecimento sobre o bioma, sua biodiversidade, espécies ameaçadas e sobreexplotadas, áreas prioritárias, unidades de conservação e alternativas de manejo sustentável aumentou nos últimos anos, fruto de uma série de diagnósticos produzidos pelo MMA e parceiros. Grande parte destes diagnósticos pode ser acessados no site do Ministério: Legislação e Publicações. Este ano estamos iniciando o processo de atualização das áreas prioritárias para a caatinga, medida fundamental para direcionar as políticas para o bioma.

Da mesma forma, aumentou a divulgação de informações para a sociedade regional e brasileira em relação à caatinga, assim como o apoio político para a sua conservação e uso sustentável.  Um exemplo disso é a I Conferência Regional de Desenvolvimento Sustentável do Bioma Caatinga - A Caatinga na Rio+20, realizada em maio deste ano, que formalizou os compromissos a serem assumidos pelos governos, parlamentos, setor privado, terceiro setor, movimentos sociais, comunidade acadêmica e entidades de pesquisa da região para a promoção do desenvolvimento sustentável do bioma. Estes compromissos foram apresentados na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável - Rio +20.

Por outro lado, devemos reconhecer que a Caatinga ainda carece de marcos regulatórios, ações e investimentos na sua conservação e uso sustentável. Para tanto, algumas medidas são fundamentais: a publicação da proposta de emenda constitucional que transforma caatinga e cerrado em patrimônios nacionais; a assinatura do decreto presidencial que cria a Comissão Nacional da Caatinga; a finalização do Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento da Caatinga; a criação das Unidades de Conservação prioritárias, como aquelas previstas para a região do Boqueirão da Onça, na Bahia, e Serra do Teixeira, na Paraíba, e finalmente a destinação de um volume maior de recursos para o bioma. 

sábado, 30 de março de 2013

Paixão, Morte e Ressurreição: nossa travessia


Mário Moura*

Há um hino da liturgia cristã da Páscoa, que nos vem do século XIII, que se canta: "a vida e a morte travaram um duelo; o Senhor da vida foi morto, mas eis que agora reina vivo”. Aí está o sentido cristão da Páscoa e seu Mistério: o que parecia derrota era, na verdade, uma estratégia para vencer a morte. Na sepultura de Jesus não cresceu a grama, porém ressuscitado, garantiu o poder supremo da vida. Nesse duelo a vida venceu a morte!

Essa mensagem está presente no mais profundo sentido humano que é a religião, contudo o seu significado não se inscreve apenas nela. Hoje mais que nunca tem uma relevância cósmica – universal - onde travamos esse duelo contínuo, presente em todo planeta Terra, abrangendo toda a comunidade de vida – inclusive a humana.

Existe um combate entre os mecanismos naturais da vida e os mecanismos artificiais que produzem a morte graças ao nosso modo de conceber a vida e a natureza, de ver, de pensar e de agir. O nosso jeito de morar, produzir, consumir e de tratar o lixo – os despejos – nos desumanizam. Nós humanos somos os primeiros a serem afetados por esse sistema. Maioria não tem as condições mínimas para viver com dignidade, subjugadas em todas as dimensões e imoladas pelas inúmeras guerras e pela fome insaciável das grandes corporações que só enxergam o lucro. A humanidade se encontra dividida entre aqueles 20% (1,3 bilhão) que controlam 83% das riquezas e dos recursos da natureza, consumindo pomposamente e que se consideram incluídos no sistema mundial da globalização e os 80% da população mundial (5,2 bilhões) que devem se contentar com os restantes 20% de meios de vida, excluídos dos benefícios da moderna sociedade de informação e de conhecimento. As outras vítimas são todos os ecossistemas, a biodiversidade e o planeta Terra como um todo.

Estamos na semana da Paixão. Cristo foi perseguido e assassinado porque queria a vida em abundância (Jo 10,10), o que o sistema político e religioso de sua época privava à maioria do povo. Morreu na cruz porque pregou o amor, a verdade e o Reino (Mt 5, 1-12).

O sistema econômico, político e religioso atuais leva à morte quem prega a vida, quem luta pela igualdade e justiça, quem quer a democracia.

A morte de Jesus não foi definitiva. No domingo de Páscoa, houve a passagem e a Ressurreição. Sua mensagem continua viva e atualíssima, afiada na sua Verdade e proposta de Justiça. Os caminhos que temos percorrido nos últimos séculos, optando pela acumulação ilimitada de ganhos, a apropriação indevida dos recursos públicos, a corrupção e a exploração sem freios dos recursos naturais da Terra, só trazem paixão e morte e não nos levam a passagem – a Páscoa.

Cuidar do nosso único planeta, cuidar dos seres vivos, cuidar por uma sociedade sustentável, cuidar do outro, cuidar dos pobres e excluídos, eis a nossa Páscoa! E essa travessia não se faz sem espanto-admiração, contradições entre o velho que teima em ficar e o novo que se empenha em nascer, sem sofrimentos consideráveis.

Que o nosso tempo seja lembrado pelo despertar de uma nova reverência diante da vida, por um compromisso firme de se alcançar a justiça e a paz e percorrer os caminhos do amor e a alegre celebração da vida.

Feliz Páscoa a todos e todas.

* Pedagogo com Especialização em Educação Especial, Coordenador Pedagógico do Colégio Municipal Pedro Batista em Santa Brígida-Bahia.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Taxar os Ricos: Um Conto de Fadas Animado


Taxar os ricos: Um conto de fadas animado, é narrado por Ed Asner, com animação de Mike Konopacki. Escrito e dirigido por Fred Glass para a Federação de Professores da Califórnia. Um vídeo de 8 minutos sobre como chegamos a este momento de serviços públicos mal financiados e ampliando a desigualdade econômica. As coisas vão para baixo numa terra feliz e próspera após os ricos decidirem que não querem pagar mais impostos. Dizem às pessoas que não há alternativa, mas as pessoas não têm assim tanta certeza. Esta terra tem uma semelhança surpreendente com a nossa terra. Para mais informações, www.cft.org.


segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

QUE NO ANO-NOVO QUE SE APROXIMA, ACIMA DE TUDO, IRROMPA A NOSSA HUMANIDADE.


2012 chega ao fim e com ele a esperança de um 2013 melhor.

Mesmo com toda a infelicidade que nos ronda: ocupações genocidas na Palestina e no Afeganistão, sob a égide imperialista-capitalista e tutela dos norte americanos; dos colóquios que salvam a lucratividade em detrimento da sustentabilidade, reforçando a exploração irracional dos recursos naturais da nossa Casa Comum - o Planeta Terra -; as milhões de crianças que passam fome na África; a seca que atinge o nordeste brasileiro; a violência; a corrupção..., dos bilhões de "condenados da Terra", expropriados de uma vida digna, excluídos pelo deus-mercado, que só enxerga no poder ter, o alcance da felicidade plena (vide os anúncios com suas propagandas irrecusáveis), podemos ainda desejar o melhor. Mesmo que seja por omissão ou opção somos os responsáveis pela falta de felicidade. Porém, podemos a partir dessa experiência, tirar a motivação para superarmos essa realidade e buscarmos "um outro mundo possível".

O Ano só será novo de fato, se o velho que reside em nós e a nossa volta seja vencido. Se tivermos a coragem de irromper o que há mais de humano na gente: o amor, a compaixão, o cuidado, a ternura e o compromisso para com nosso próximo e a vida em todas as suas dimensões, engravidar-se de nós mesmos, revirarmos tudo pelo avesso e aí sim, "sentir os gritos dos famintos, o gemido da Mãe Terra, a dor das florestas abatidas e a devastação atual da biodiversidade." (Leonardo Boff).

Paz e Bem
Mário Moura.